Rotina
Um belo dia, você acorda e se vê em sua cama. Sente o alívio de que o pesadelo ao qual havia sido submetido momentos antes, em um sono profundo, era apenas um sonho. Um passatempo que seu subconsciente construiu, talvez para alertá-lo sobre algo que seu consciente precisa saber ou simplesmente um reflexo de alguma ansiedade que se manifestou nas imagens da mente mais profunda.
Livre dessa realidade, você agradece por ter sido apenas um sonho. A primeira coisa que faz é procurar seu celular, que sempre dorme com você. Seu amigo inseparável, em quem confia mais do que em sua namorada, seu irmão ou sua irmã. Abre o aplicativo de rede social que mais lhe proporciona satisfação, seja o Instagram, TikTok ou, pior ainda, Kwai. Começa a rolar vídeos e mais vídeos, um mais engraçado que o outro. Olha no relógio e percebe que, em instantes, terá que pegar o ônibus para o trabalho. Guarda o celular, notando que gastou 15 minutos em uma sequência 'leve' de vídeos, e então afirma para si mesmo: "Nossa, o tempo está passando muito rápido".
Já arrumado, entra no ônibus, aquele coletivo lotado de toda segunda-feira às 6h30 da manhã. Sentado ou em pé dentro do ônibus, pega novamente o celular do bolso ou da mochila e volta à mesma maratona de vídeos. Passa 20 minutos rindo sozinho e chocado com os conteúdos que aparecem na tela. Incomodado e procurando outro meio de obter dopamina barata, decide jogar um jogo extremamente popular: Candy Crush. Abre o aplicativo e começa a jogar. Depois de 10 minutos, você chega ao terminal, onde precisa esperar mais 30 minutos pelo próximo ônibus. Durante esse tempo, continua vidrado nos doces que aparecem na tela do celular.
Finalmente, chega o outro ônibus, aquele que o levará ao trabalho, que fica do outro lado da cidade ou até mesmo na cidade vizinha. Você então percebe uma fila de pessoas se formando para entrar no ônibus. Nota a ansiedade em algumas delas, que andam mais rápido do que as demais. Percebe que estão apressadas para conseguir um lugar para sentar. De repente, sente um calafrio subir por sua espinha.
Esse calafrio o faz lembrar do sonho que teve, o sonho pelo qual agradeceu por ter sido apenas um sonho. No entanto, aquele sonho era mais do que um devaneio: era uma denúncia, uma exposição das irregularidades que seu subconsciente encontrou em sua vida. Uma realidade distante daquela que você sonhou e planejou na sua primeira infância. Seu inconsciente guardou essas expectativas, carrega e carregará consigo, jogando-as na sua cara e cobrando algo semelhante até o fim de sua vida.
O Criador Egoísta
Ao longo da história, todos aqueles que se dedicaram a criar e construir algo além de sua época, realidade ou contexto de vida sempre apresentaram características semelhantes, mesmo separados por séculos de distância. Não eram dotados de bons costumes sociais e eram frequentemente vistos como apáticos pela sociedade.
No entanto, sozinhos consigo mesmos, construíam um mundo particular, repleto de suas próprias peculiaridades e singularidades.
Nesse universo pessoal, quase nunca havia elementos que remetessem ao mundo no qual eram inseridos todas as manhãs, muitas vezes contra sua vontade.
Ao retornarem ao mundo real, indignados ao perceberem que nada ali condizia com o que viam e percebiam em seu mundo pessoal.
Indignados, muitos tentavam construir do zero, no mundo real, aquilo que só existia em seu mundo particular.
Eis, então, a astúcia real de um verdadeiro criador.
A história narra que, em todo momento da humanidade em que pessoas comuns e a sociedade entraram em contato com criadores e suas invenções, uma labuta era formada contra a criação, pois ela mexia com a ociosidade de suas rotinas.
Marcas recentes mostravam que pessoas dedicadas às ciências, quando compartilhavam suas invenções, que poderiam salvar milhares de vidas, eram então queimadas na fogueira em praça pública, sendo chamadas de bruxas
por aqueles que se diziam cheios do amor do Deus cristão.
As pessoas sempre demonstraram que nunca gostaram de ver alguém saindo do que não lhe era habitual fazer ou que era ousado fazer. Sempre observavam isso com inveja, medo ou raiva. Poucos tinham mentes abertas que apoiavam isso com força. Mas a maioria esmagadora era sempre contra.
Diante disso, os criadores desenvolveram técnicas para lidar com essa hostilidade, sendo a principal delas a simples e sutil indiferença.
Todos eles sempre responderam à sociedade com a mesma atitude: a indiferença ao status quo.
A sociedade os condenava veementemente, mas, no final das contas, estavam todos usando a criação do então criador,
que não era nada para eles, a não ser só mais um excluído pela sociedade.
O Chamado
Dentro de sua própria consciência, todos os indivíduos são chamados a fazer parte de um grupo seleto e antagônico ao status quo da sociedade. No entanto, devido ao medo da rejeição, poucos têm coragem de atender a esse chamado.
Alguns aceitam esse chamado ainda na infância – a melhor fase para evolução – e, assim, ficam anos à frente de muitos de seus semelhantes, mesmo que sejam rotulados com adjetivos que questionem suas faculdades mentais.
O protagonista da história de abertura sofre frequentemente por não atender a esse chamado, continuando na mesma ociosidade de seus semelhantes. Ele poderia muito bem ouvir sua alma e compreender o que ela tanto anseia que ele faça.
A voz do inconsciente é diferente para cada um. O que minha voz espiritual deseja para mim talvez nunca sirva para você.
Levei 15 anos, passei por 4 relacionamentos e 5 gerações de amizades até entender que a voz dentro da minha mente, que sempre me pede para criar e construir, não é a mesma que guia as pessoas próximas a mim, por mais que eu tente impor isso a elas.
O que quero dizer é que este texto não é um manual de como se tornar um criador, mas um caminho para você compreender um pouco melhor como um criador pensa e funciona.
Você pode, sim, ouvir a voz do seu inconsciente e entender o que ele realmente deseja que você faça da sua vida. É algo divino; muitos passam a vida sem jamais compreendê-lo.
Um grande sinal de que alguém nasceu para criar e produzir é que, além de ser indiferente à sociedade, também é indiferente a ordens. Isso é razoável.
Uma mente brilhante nunca foi feita para seguir ordens, mas para orientar outras mentes, para produzir e criar. Nenhum criador aceitará ser subordinado a alguém e, como consequência, enfrentará grandes desafios na sociedade atual, pois as instituições de educação normalmente não promovem a liberdade de pensamento, mas sim a conformidade – transformando cada indivíduo em apenas mais uma peça dentro da engrenagem social, pronto para trabalhar no que for até o fim da vida, sem ao menos entender o que é viver de verdade.
Afinal, o que é viver de verdade?
> Para minha patroa, é trabalhar com o que você ama até o fim da vida.
> Para um bilionário da internet, é colocar o dinheiro para trabalhar por você, e assim poder viver cada dia como se fosse o último, gozando da liberdade plena.
> Para Nietzsche, semelhante ao bilionário, é viver um dia como se ele fosse se repetir pela eternidade. Para isso, eu teria que tornar este dia fabuloso e delicioso, para que pudesse aproveitar o seu loop infinito sem arrependimentos.
> Para minha mulher, é viver bem e em paz com quem amamos.
> Para mim, é destruir qualquer corrente que me prenda ou que prenda aqueles com quem me importo. Correntes que impedem um indivíduo de viver de verdade, para que então possamos desfrutar das luxúrias que o capitalismo nos oferece sem precisar fazer muito – ou talvez nada.
Usar o sistema a nosso favor, algo tão simples, mas que só é divulgado entre os criadores que inovam para burlá-lo. Esses, comumente chamados de hackers.
"O homem que segue a multidão não irá além da multidão. O homem que anda sozinho pode chegar a lugares onde ninguém jamais esteve." — Albert Einstein
Como afirmei acima, aprendi que o jeito que penso jamais pode ser imposto ao outro, por mais maravilhoso que ele seja. Contudo, eu insisto, apenas uma última vez.
Carta de Aviso
O espírito sempre há de cobrar o que realmente quer fazer. Não importa o quanto você tente ignorar ou suprimir essa voz interior, ela sempre encontrará uma maneira de se manifestar. Pode ser em sonhos, momentos de introspecção ou até mesmo em crises existenciais. O importante é estar atento a esses sinais e não ter medo de seguir o caminho que sua alma deseja trilhar.
A vida é curta demais para ser vivida de acordo com as expectativas dos outros. Cada indivíduo tem em si a missão que foi programada ainda na infância, e isso a psicanálise entende e sabe muito bem.
Eu não vejo o trabalho CLT como algo bom ou digno. Eu vejo a CLT como uma assassina de sonhos, que escraviza o indivíduo e mata os seus sonhos. Faz pior: não mata o sonho de uma vez, ela é cruel, sádica.
Ela faz o indivíduo passar o resto da vida sonhando com a mobilidade social, achando que trabalhando para os outros, irá ficar rico ou rica, sendo que isso só deixará os outros mais ricos, em cima de suas próprias produções, em cima de sua dor, suor, saúde e esperança.
Ayn Rand escreveu em sua magnífica obra, A Nascente, que
a sociedade é escravagista e só se isolando dela, não servindo a ninguém, trabalhando para si mesmo, o indivíduo poderá prosperar e sonhar com a mobilidade e ascensão social.
Em todos os livros que já tive contato até o momento, não encontrei outro que não seja tão norteador para um criador viver e evoluir nos tempos atuais como o de Ayn Rand.
Sim, é um livro de 1940, e ele denuncia coisas presentes no mundo atual, servindo como exemplo de como a sociedade demora para aceitar novas ideias, sair do comodismo, da ociosidade e aceitar a evolução.
Mas como posso trabalhar para mim mesmo, se trabalho 40 horas semanais, 8 horas por dia? Preciso do sábado e domingo para viver.
Vamos voltar à história do nosso protagonista inicial.
Graças ao avanço da tecnologia (que Karl Marx sempre amou e defendeu), temos hoje a possibilidade de usar computadores em nossas mãos e levá-los para onde quisermos.
Podemos aproveitar qualquer tempo livre para criar e desenvolver nossas ideias, seja durante o trajeto para o trabalho ou em qualquer outro momento de ociosidade.
A tecnologia nos permite quebrar as correntes da rotina e nos dá a oportunidade de sermos criadores, independentemente das circunstâncias. Podemos usar nosso tempo livre para aprender novas habilidades, desenvolver projetos pessoais e até mesmo iniciar um negócio próprio.
A chave é transformar a ociosidade em produtividade. Seja produzindo uma edição de vídeo ou aprendendo a programar.
Em vez de sucumbir ao consumo passivo de conteúdo nas redes sociais, o protagonista poderia aproveitar esse tempo para investir em seu desenvolvimento pessoal e profissional. Ele poderia, por exemplo, ouvir podcasts educativos, audiolivros ou cursos online que o ajudem a adquirir novas habilidades e conhecimentos. Além disso, poderia utilizar aplicativos de aprendizado de idiomas, leitura de e-books ou até mesmo praticar meditação guiada para melhorar seu bem-estar mental.
Outra alternativa seria dedicar-se a um hobby produtivo, como escrever, desenhar ou planejar projetos pessoais. Dessa forma, ele estaria transformando momentos de ociosidade em oportunidades de crescimento e realização pessoal, contribuindo para seu desenvolvimento contínuo e para a construção de um futuro mais alinhado com seus sonhos e aspirações.
Eu acho repugnante ver em nossa sociedade atual, professores com doutorados trabalhando 100 horas mensais, ganhando muito menos do que um youtuber que nem o ensino médio completo tem. Isso reflete uma inversão de valores onde o conhecimento e a educação são desvalorizados, enquanto o entretenimento superficial é altamente recompensado. É um sinal claro de que precisamos reavaliar nossas prioridades como sociedade e dar o devido valor àqueles que dedicam suas vidas ao ensino e à formação das futuras gerações.
Infelizmente, isso não acontece da noite para o dia, ainda mais em países subdesenvolvidos. O que podemos fazer no momento é jogar de acordo com o sistema e usar isso a nosso favor. Usar a tecnologia e produzir com ela, mesmo se formados como professores ou em qualquer outra profissão. O retorno e o reconhecimento podem ser muito maiores do que apenas trabalhando com CLT.
Além disso, é importante entender que a mudança de mentalidade é um processo gradual. Precisamos nos adaptar às novas realidades e aproveitar as oportunidades que surgem com o avanço tecnológico. Isso inclui aprender novas habilidades, buscar conhecimento contínuo e estar disposto a sair da zona de conforto.
A tecnologia nos oferece ferramentas poderosas para inovar e criar soluções que podem transformar nossas vidas e a sociedade como um todo. No entanto, é necessário ter disciplina e foco para utilizar essas ferramentas de maneira eficaz. Não basta apenas ter acesso à tecnologia; é preciso saber como usá-la para alcançar nossos objetivos.
Outro ponto crucial é a colaboração. Trabalhar em rede, compartilhar conhecimentos e experiências com outras pessoas pode acelerar nosso crescimento e nos ajudar a superar desafios. A comunidade de criadores e inovadores está sempre disposta a apoiar e incentivar aqueles que buscam fazer a diferença.
É essencial ter paciência e perseverança. O caminho para o sucesso raramente é fácil ou rápido. Haverá obstáculos e momentos de dúvida, mas é importante manter a visão de longo prazo e continuar avançando, mesmo diante das dificuldades. Com determinação e esforço contínuo, é possível alcançar resultados significativos e realizar nossos sonhos.
"A formiga só trabalha porque não sabe cantar." — Raul Seixas
Desfecho
Ontem, minha mulher me apresentou um artigo muito interessante de uma autora do século passado, afirmando que a precariedade da educação no Brasil não é um erro, mas sim um negócio.
Ela argumenta que a falta de investimento e a má gestão da educação pública são deliberadas, com o objetivo de manter a população em um estado de ignorância e submissão. Dessa forma, a elite econômica e política pode continuar explorando os recursos do país sem enfrentar resistência significativa.
Esse ponto de vista é perturbador, mas faz sentido quando analisamos a história e a estrutura social do Brasil. A educação de qualidade é uma ferramenta poderosa para a emancipação e o desenvolvimento de uma nação. No entanto, quando a educação é negligenciada, a população permanece vulnerável e dependente, perpetuando um ciclo de pobreza e desigualdade.
A reflexão sobre esse artigo me fez perceber a importância de lutar por uma educação mais acessível e de qualidade para todos. Somente por meio do conhecimento e da conscientização podemos construir uma sociedade mais justa e igualitária.
No entanto, creio que, devido à matriz profundamente enraizada por décadas, ou até séculos, muitos irão ler minhas palavras com zombaria, alegando que falo sobre meritocracia (algo que não mencionei) ou que sou apenas mais um sonhador superestimado, acreditando que as coisas são fáceis.
Sei, como qualquer pessoa que veio da favela e possui familiares com vícios, que a vida de quem está à margem não é nada fácil. Não sou contra a CLT, mas afirmo que continuar nela é, de certa forma, um suicídio lento e doloroso.
Aceite aprender coisas novas para promover sua mobilidade social de maneira mais eficiente. As inteligências artificiais estão aí para te ajudar no que for necessário.
- Leia um livro todo dia por 20 minutos
- Assista a vídeos sobre programação ou sobre qualquer coisa que você tenha interesse em aprender
- Pratique exercícios físicos para manter a mente e o corpo saudáveis
- Dedique tempo à meditação ou outras atividades que promovam o bem-estar mental
- Participe de comunidades online relacionadas aos seus interesses
- Desenvolva projetos pessoais que possam agregar valor à sua carreira
- FAÇA O QUE FOR MELHOR PARA A SUA EVOLUÇÃO.
Seja o que você quer ser, não o que os outros esperam que você seja.
Porque sonhar em ser mais um escravo do sistema e, eventualmente, se tornar mais um ser substituível, como Kafka descreve em seu livro A Metamorfose, é um desperdício. O personagem que ele descreve se transforma em um inseto, imagem que, curiosamente, também se reflete na capa deste artigo. Esse processo de desumanização leva a pessoa a gastar a maior parte da vida esperando pela aposentadoria, algo que, em muitas culturas, é retratado como o final de uma trajetória de cansaço e alienação (como no desenho "Carrapatos e Carraputas", onde a mãe do protagonista, já morta, continua a ligar para ele, pedindo para trabalhar e comer tudo corretamente, para que ele também possa ir para o "outro lado").
Cada indivíduo tem um propósito único e especial. Por isso, é essencial seguir o caminho que ressoa com sua própria essência. Não permita que as opiniões alheias ditem suas escolhas e ações. Tenha coragem de ser autêntico e fiel a si mesmo, mesmo que isso signifique nadar contra a corrente.
Lembre-se de que a verdadeira felicidade e realização vêm de viver uma vida alinhada com seus próprios valores e sonhos.
Além disso, é crucial entender que o governo e a sociedade muitas vezes impõem normas e expectativas que podem não estar alinhadas com o seu verdadeiro eu. Para ser verdadeiramente livre, é necessário questionar essas imposições e buscar um caminho que permita a plena expressão de sua individualidade.
Isso pode significar desafiar o status quo e tomar decisões que vão contra o que é convencionalmente aceito. A verdadeira liberdade vem da capacidade de pensar por si mesmo e agir de acordo com suas próprias convicções, sem ser limitado pelas expectativas externas.
"O homem mais perigoso para qualquer governo é aquele que é capaz de pensar por si mesmo, sem considerar os tabus e superstições predominantes. Inevitavelmente, ele chegará à conclusão de que o governo sob o qual vive é desonesto, insano e intolerável." — Ayn Rand, A Nascente
Tudo bem se você não concordar comigo. A oportunidade de criar e dar mais valor para si mesmo continuará a bater à sua porta até o final de sua vida.
"A pessoa criativa não está interessada em ser aceita, mas em expressar sua própria verdade." — Ayn Rand, A Nascente